13.7.09

Interser



Era o entardecer. Tudo estava silencioso a não ser por alguns pássaros. Vesti os hábitos formais, acendi um incenso de sandalo que trouxera, fiz um pouco de chá e enquanto o bebia lentamente fiquei a olhar para a palha de arroz que forrava o chão de todo o aposento.

De repente percebi o chão vivo. A palha de arroz era um grande arrozal. O vento balançava as longas hastes douradas. Foi tudo muito rápido, mas muito vívido. Pouco depois o chão voltou a ser a palha de arroz antiga, já um pouco desgastada pelos anos de uso, mas ainda em muito bom estado. Pensei em todas as pessoas que aqueles tatami suportaram e as que ainda servirão e senti uma grande reverência pelos campos de arroz.

A interdependência, ensinada nos textos sagrados, está em toda parte. O arroz só é possível se houver água, sol, nuvem, sapos que coaxam nos verões à sua volta, senhoras idosas de costas curvas pelos anos de constante plantar e colher. O arrozal existe se houver crianças correndo, varais de roupas coloridas, minhocas, e até nossos pensamentos e sentimentos. Tudo interligado, interconectado e vivo. O arroz é feito de coisas não-arroz. Cada um de nós existe graças a todos os não-nós.
Palha de arroz. Tatami. Vislumbre breve do milagre de interser.

Monja Coen