23.8.09

O Livro dos Livros



Conta-se que há muitos e muitos anos, vivia no oásis de Bukra um povo cuja bondade nem o tempo conseguia medir.
Esse povo era o guardião do Kitab-ul-Kutub (Livro dos Livros) que deveria servir de guia espiritual para a humanidade, e que de forma nenhuma poderia cair em mãos erradas, sob o risco de despertar o Incontrolável.

Na capa, letras circundavam a figura de um gafanhoto onde se lia:
"Ser humano é entender que a
Diversidade leva à unidade,
Que a unidade leva à solidariedade,
Que a solidariedade leva à igualdade,
Que a igualdade leva à liberdade,
Que a liberdade leva à diversidade."

Nas páginas internas, desenhos de animais vinham acompanhados de parábolas.
A do cavalo dizia: “vivemos num eterno círculo, onde as retas não tem fim” ;
a do camelo apregoava: “impossível e nunca são palavras que não devem ser pronunciadas porque a natureza humana não tem limites” ;
A da gazela ensinava: “a sabedoria é como água, quem não tem sede não tem prazer em beber” ;
A da águia alertava: “nenhuma coisa pode ser percebida, se não souber como vê-la” ; a do touro lamentava: “quem pensa somente no futuro é insensato; afinal: o que o futuro lhe trouxe?” ;
A do escorpião instruía: “fuja do hábito, ou ele acabará anulando sua vida” ;
A da serpente proclamava: “Imortal, a humanidade jamais terá fim, pois Deus precisa do homem para existir” ...

Na página central, ao lado da imagem do gafanhoto, um texto esclarecia:

O gafanhoto reúne a natureza e a forma dos sete viventes primordiais: Tem a cabeça do cavalo, o pescoço do touro, as asas da águia, os pés do camelo, a cauda da serpente, o ventre do escorpião e os chifres da gazela.

Se você chegou até aqui e não entendeu a mensagem, não prossiga.

Observe e aprenda que os animais são mais generosos que os homens, pois nunca se viu um leão escravo de outro leão, nem cavalo de outro cavalo.

Não se sabe o que aconteceu com o povo de Bukra, nem com o livro. Beduínos da tribo dos Bani-Nujum deixaram relatos de que eles teriam se ocultado para proteger o livro do Al-Dajal, trazido pelo vento norte.

E que um dia reapareceriam para que a humanidade pudesse entender o significado do círculo da Vida.

Georges Bourdoukan
Revista Caros Amigos, pág. 28 - Abril de 2004